Last Updated on 23 de fevereiro de 2026 by Lucano Brito
Há momentos no calendário cristão que não são apenas datas. São convites. A Quarta-feira de Cinzas é um desses chamados silenciosos e profundos. Ela nos recorda da nossa condição humana, frágil e passageira, e nos convida a iniciar a Quaresma, tempo de conversão, escuta e reencontro com aquilo que verdadeiramente importa.
É também nesse tempo que a Igreja, por meio da Campanha da Fraternidade, nos provoca a olhar para realidades que muitas vezes permanecem invisíveis. Neste ano, o chamado é claro e necessário: refletir sobre o direito à moradia digna.
Falar de moradia é falar de pertencimento. É reconhecer o direito de cada pessoa a um lugar onde a vida possa repousar sem medo, onde os sonhos possam nascer e onde a dignidade encontre abrigo. Não se trata apenas de paredes e teto, mas da possibilidade de existir com segurança, de ser reconhecido e de reconstruir a esperança.
Mas a realidade ainda é dolorosa. Segundo o Censo de 2022, mais de 160 mil brasileiros vivem em domicílios improvisados, em barracas, carros ou espaços que jamais deveriam ser chamados de casa. Outros milhões habitam construções frágeis, que não protegem do frio, nem da chuva, nem da insegurança.
Por trás de cada número há um rosto. Há mães, trabalhadores, idosos e jovens que lutam diariamente por um lugar onde possam viver com dignidade.
Pessoas que não perderam a vontade de recomeçar, mas que precisam de condições para seguir.
Aqui, na Grande Florianópolis, essa realidade também nos interpela. O alto custo do aluguel e a escassez de moradias acessíveis revelam uma ferida social que não pode ser ignorada. Famílias vivem sob o peso da incerteza, em condições que ameaçam não apenas o corpo, mas também o sentido de pertencimento.
A falta de moradia é, antes de tudo, uma questão humana. É o clamor de irmãos e irmãs que pedem não privilégio, mas reconhecimento. Não favor, mas justiça. A Campanha da Fraternidade nos lembra que a fé se concretiza no encontro. Jesus nunca ignorou os que estavam à margem. Ele se aproximava, escutava e devolvia dignidade. Ele construiu pontes onde havia abismos.
É isso que somos chamados a fazer. As pontes não nascem do concreto, mas da compaixão. Cada gesto de cuidado, cada atitude de solidariedade e cada decisão que coloca a dignidade humana no centro é uma ponte que se levanta.
Que este tempo nos ajude a compreender que nenhuma transformação verdadeira nasce da indiferença, mas do encontro. Porque é na simplicidade de uma mão que sustenta a outra que começa a reconstrução do mundo, um gesto de cada vez, um encontro de cada vez, até que ninguém mais precise viver à margem da esperança.
Artigo de Padre Vilson Groh, publicado originalmente no Jornal ND, na seção Opinião do Leitor no dia 21 de fevereiro de 2026.


