Carta do Presidente

O que começou pequeno hoje tem raízes profundas

Há sonhos que não nascem prontos. Eles vão sendo tecidos lentamente, entre encontros, dores, esperanças e mãos que se unem. O IVG nasceu assim. Não como uma obra individual, mas como uma travessia coletiva construída ao longo de 45 anos de caminhada junto às periferias da Grande Florianópolis.

Hoje, ao celebrarmos os 15 anos do IVG e toda essa trajetória construída pelas organizações da nossa Rede, o que mais me toca não são os números, embora eles revelem a grandeza do caminho. O que mais me toca são os rostos. Os rostos das crianças, dos adolescentes, dos jovens, das famílias, das lideranças comunitárias, dos educadores, voluntários, parceiros e trabalhadores que fizeram florescer esperança onde tantas vezes só havia ausência.

Quando cheguei ao Monte Serrat, ainda jovem, aprendi muito cedo que a pobreza não é falta de capacidade. A pobreza é, muitas vezes, a ausência de oportunidade. E foi convivendo com o povo das comunidades, escutando suas histórias e compartilhando suas lutas, que compreendi algo fundamental: nas periferias existe uma riqueza humana extraordinária, um potencial imenso esperando apenas cuidado, oportunidade e confiança para florescer.

O IVG nasce justamente dessa compreensão. Nasce da necessidade de construir pontes entre o público, o privado e o comunitário. Nasce do desejo de fortalecer organizações que já estavam nos territórios, sustentadas pela coragem de mulheres e homens que nunca desistiram da vida. Nasce da convicção de que ninguém transforma uma cidade sozinho, mas que uma rede movida pela solidariedade estrutural pode mudar destinos e reescrever histórias.

Ao longo desses anos, fomos aprendendo que transformar a realidade exige mais do que assistência. Exige presença. Exige vínculo. Exige acreditar profundamente que cada criança e cada jovem têm direito ao sonho, ao conhecimento, à cultura, ao trabalho digno, à universidade, à participação social e ao protagonismo da própria vida.

E é isso que temos buscado construir juntos.

Quando uma criança aprende a ler e descobre o mundo das palavras, ali já começa uma transformação profunda. Quando um adolescente da periferia entra na universidade, toda uma comunidade atravessa junto os portões daquela instituição. Quando um jovem conquista seu primeiro emprego, não é apenas uma vaga ocupada; é a dignidade reencontrando espaço para existir. Quando uma família consegue colocar alimento na mesa em tempos difíceis, a solidariedade deixa de ser discurso e se torna cuidado concreto com a vida.

O IVG foi se tornando, ao longo desses 15 anos, um espaço de articulação de sonhos e possibilidades. Um lugar onde diferentes organizações, comunidades, empresas, universidades, voluntários e agentes públicos puderam compreender que a cidade só será verdadeiramente democrática quando todos tiverem direito de sentar-se à mesa da dignidade.

A Rede IVG é feita disso: de encontros que constroem caminhos. Da ACAM ao CEDEP, da Associação João Paulo II ao Centro Cultural Anastácia, do Centro Social Elisabeth Sarkamp às escolas sociais Maristas, da experiência em Guiné-Bissau às tantas ações desenvolvidas nos territórios da Grande Florianópolis. Cada organização carrega uma história de resistência, de cuidado e de defesa da vida.

E talvez uma das maiores belezas dessa caminhada seja perceber que aquilo que começou pequeno foi criando raízes profundas. Hoje vemos jovens que passaram pelas nossas organizações retornando como educadores, lideranças, profissionais, empreendedores e referências em suas comunidades. Vemos meninas e meninos que antes carregavam tantas inseguranças descobrindo a força da própria voz. Vemos mães recuperando esperança. Vemos territórios fortalecendo seus vínculos comunitários. Vemos a educação abrindo caminhos onde antes existiam muros.

Tudo isso só foi possível porque muitas pessoas acreditaram conosco.

Cada parceiro que estendeu a mão. Cada educador que escolheu permanecer. Cada voluntário que dedicou tempo e afeto. Cada organização que compreendeu a importância do trabalho em rede. Cada pessoa que decidiu investir não apenas recursos, mas confiança na potência da vida.

A todos vocês, nossa profunda gratidão.

Vivemos tempos marcados pela indiferença, pelo individualismo e pela lógica do descarte. Por isso, defender a vida nas periferias é também um ato de esperança. Esperança não como espera passiva, mas como verbo em movimento. Esperançar é construir oportunidades concretas. É criar pontes. É romper a naturalização da desigualdade. É acreditar que nenhuma criança nasceu para ter seus sonhos interrompidos pela fome, pela violência ou pela falta de acesso aos direitos básicos.

O nosso compromisso continua sendo o mesmo: fortalecer uma cultura do encontro, da justiça social e da solidariedade estrutural. Continuar olhando a cidade como um grande jardim, onde cada vida importa e onde cada pessoa precisa encontrar condições para florescer.

Porque uma cidade só se torna verdadeiramente humana quando ninguém é invisível.

Que possamos seguir juntos, com simplicidade, coragem e ternura, construindo uma cidade mais democrática, mais includente e mais sensível à dor do outro. Uma cidade onde as pontes sejam maiores que os muros. Onde a esperança tenha endereço, rosto e oportunidade.

Nosso agradecimento a cada pessoa que faz parte dessa caminhada.

Esses 15 anos do IVG e esses 45 anos de história não pertencem a uma instituição. Pertencem a todas as mãos que ajudaram a sustentar a vida, a dignidade e os sonhos de milhares de crianças, adolescentes e jovens.

E enquanto houver uma criança precisando acreditar no amanhã, nossa caminhada continuará.

pe. vilson

Vilson Groh

Presidente e fundador do Instituto Padre Vilson Groh