Um artigo de Padre Vilson Groh para o Dia Mundial da Justiça Social
Hoje, dia 20 de fevereiro, celebramos o Dia Mundial da Justiça Social, uma data convocada pela ONU para refletirmos sobre a necessidade de rompermos com o processo da indiferença na casa comum. É um momento para aprender, juntos, a trabalhar em cumplicidade pelos direitos que cada ser humano tem. Como afirma o Papa Francisco, o direito à terra, o direito ao teto, o direito ao trabalho passa, sem dúvida, por uma grande atitude pessoal e coletiva: romper com a naturalização da injustiça social.
Muitas vezes, essa naturalização está enraizada em nossos corações, manifestando-se na indiferença ao outro, na petrificação e insensibilidade do coração humano. É preciso, portanto, abrir os olhos para a realidade, compreender as estruturas que perpetuam a injustiça e recuperar uma perspectiva coletiva que nos impulsiona a agir na contramão de um sistema iníquo e desigual. Um sistema que sustenta todo tipo de tratamento desumano contra migrantes, minorias e o meio ambiente; que se beneficia da desinformação intencional; que intensifica a rejeição ao diálogo; e contribui com a produção de armas e com a escalada da violência.
Voltar a um caminho que desconstrua esse pensamento único e iníquo exige de nós o desafio da reflexão e da capacidade de perceber as estruturas injustas. Pois, no dia em que perdermos a reflexão, perderemos também o olhar pensante e a capacidade de se posicionar do dia a dia.
O Papa Francisco propôs, no Dia Mundial da Paz, três grandes atitudes que devem nortear a nossa ação:
Essas atitudes começam na prática da vida cotidiana, no poder local e na nossa vivência. A relação entre o local e o global se torna ainda mais complexa no mundo de hoje, onde valores fundamentais como a democracia e a justiça social estão ameaçados. A justiça social está intrinsecamente ligada à democracia, pois é ela que garante a todos o direito de sentar-se à mesa e compartilhar os bens comuns.
Isso também envolve a questão da dívida externa, onde os países ricos sujeitam os países pobres a um sistema de exploração. Uma criança que nasce hoje no Hemisfério Sul já chega ao mundo endividada, com uma dívida que não contraiu e que, ainda assim, compromete seus sonhos, sua dignidade e sua possibilidade de pleno desenvolvimento.
No Brasil, perdemos anualmente cerca de 40 mil jovens para a violência. Esse cenário está intrinsecamente ligado à questão da dívida externa, e é fundamental repensarmos essa relação de opressão. Somente assim os países empobrecidos poderão se desenvolver de forma sustentável e viabilizar os sonhos das crianças e jovens.
Olhando para o poder local, é importante compreender como esses mecanismos de exploração afetam os próprios países. No Brasil, por exemplo, é urgente refletir sobre as marcas da colonização e tratar questões como o racismo estrutural, os direitos das mulheres e dos povos indígenas. Isso exige um debate local sobre o papel do Estado e a construção de políticas públicas que enfrentem essas realidades.
Essa perspectiva nos leva à segunda atitude relacionada à paz e à justiça social: não há paz sem justiça. Precisamos cuidar da cultura da vida, pois a vida hoje está ameaçada de diversas formas. É prioridade protegê-la do início ao fim, garantindo que todos possam existir e se desenvolver com dignidade.
Esse caminho está sob ameaça devido a instrumentos como a pena de morte em diversos países e à violência institucionalizada, que tem raízes nos processos econômicos, políticos, culturais e sociais. Trabalhar pela não-violência implica construir uma coletividade onde todos tenham acesso aos seus direitos.
O direito à vida e à dignidade não pode ser descartável. No sistema capitalista, muitas vezes a vida perde seu significado diante da busca incessante por lucro. É necessário resgatar a essência e o propósito da vida, promovendo uma ecologia integral que reconheça a interdependência entre todos os seres vivos.
A terceira dimensão proposta pelo Papa Francisco é a ideia de uma “hipoteca social” sobre a produção de armas. Enquanto potências mundiais investem bilhões na indústria do armamento, o combate à fome segue negligenciado. Com os avanços da inteligência artificial, da tecnologia e da ciência, é inconcebível que ainda não tenhamos resolvido a questão da fome, que afeta milhões de pessoas em nossas periferias, grandes cidades e comunidades indígenas, negras e migrantes.
A gestão pública precisa estar voltada para essa realidade, considerando aqueles que estão totalmente destituídos de dignidade e condições básicas de vida, como as pessoas em situação de rua. O aumento dessa população reflete o crescimento da desigualdade e da concentração de riquezas e terras.
A justiça social requer participação ativa. E, nesse contexto, a educação desempenha um papel fundamental. Ela é uma ferramenta libertadora e humanizadora, capaz de despertar uma consciência coletiva. Precisamos nos reconectar como sociedade, rompendo com a indiferença, o egoísmo e o individualismo.
Viver coletivamente exige compreender a realidade do outro e construir pontes de diálogo. A cultura do encontro, baseada no respeito às diferenças, deve ser fortalecida para garantir a justiça social.